Para a minha amiga C. Companheira de vidas.
Como poderia ter feito alguma coisa? Nem renunciando ao amor e à vida de Pedrito el Cavaleiro. O Nobre herói vindo das terras que ninguém conhecia que, montado no seu cavalo branco, percorria o mundo em busca da sua cara metade.
De ti, minha amiga, dizia-se que eras uma bruxa e que nas noites de lua cheia deambulavas pelas ruas por onde apenas circulam heróis, vilões e almas do outro mundo.
A mim, tua amiga apenas nas horas em que os olhares dos outros se ausentavam, disseste que encontraria o amor das minhas vidas perto de um mosteiro de cor de terracota.
Naquela tarde em que recebeste uma visão, uma mensagem ou outra coisa qualquer (confesso que nunca cheguei a perceber se realmente recebias mensagens ou se apenas por apurada intuição decidias o futuro dos outros), proferiste qualquer coisa como: "O vosso amor só se concretizará se no ano do novo rei, no preciso momento em que o Inverno passa o testemunho à Primavera e o Sol dá lugar à Lua, um cardeal de olhos cor de mar, irado, perdido e transtornado com os seus ambíguos sentimentos de amor e ódio transformar em cinzas o objecto do seu desejo". E continuaste "Até lá, durante todas as noites sem excepção, tu e essa outra parte de ti irão encontrar-se em sonhos vividos no mais profundo do vosso inconsciente. Essas noites serão tão intensas que no momento que se encontrarem frente a frente não terão dúvidas de que estão completos e o vosso primeiro beijo terá o ritmo e o sabor dos beijos de um passado que na verdade nunca existiu".
"Mas atenção, nesse mesmo dia e nessa mesma hora irás ser levada a confundir o teu destino com o destino de alguém que muito gostas. Não consigo perceber quem seja, só sei que esse alguém veio a esta vida para que numa vida que ainda nem sequer viveu possa castigar o tal cardeal de olhos cor de mar. Continuo sem perceber mas, sei que o conselho que tenho para te dar, é que deves acreditar no amor do teu cavaleiro acima de tudo. Não deves, em momento algum, desconfiar da veracidade destas minhas palavras.” E reforçaste: “Nem mesmo quando da minha boca ouvires outras que te pareçam contrárias. Nunca deves ter medo de lutar por esse cavaleiro que corre o mundo à tua procura. Essa desconfiança será a tua perdição. Serás tentada a renunciar a tudo isto e, se o fizeres, os dois precisarão de percorrer quantas vidas forem necessárias até perderem o medo de se amar. Ao longo das vidas tu e ele trocarão os papéis do fraco e do herói e, enquanto não se tornarem os dois heróis, depois dos vossos intensos encontros haverá sempre um que cedo abandonará a vida presente, de forma que ambos se tornem mais sábios nas técnicas de vencer o medo."
Cinco anos depois, no dia em que o rei morto dava lugar ao rei posto, recebo a notícia de que o tal cardeal, louco de amor por ti, cego, irado e de orgulho ferido te acusara de bruxa e te mandara para a fogueira sem demora. Desesperada, corri para a praça onde o povo já ocupara as primeiras filas para assistir ao teu espectáculo. Conseguia ouvir a tua voz de socorro e sentindo-me a única pessoa capaz de ouvir teus gritos, tentei furar a multidão para chegar até ti para fazer não sei bem o quê. Percebi que era impossível passar, o povo estava demasiado entusiasmado com a festa para abdicar do seu tão arduamente conquistado lugar na plateia.
Só há uma última hipótese, pensei, falar com o tão temido servo do Senhor. Corri para o mosteiro para implorar piedade àquele que falava em nome de Deus, antes que o pôr-do-sol ordenasse a sua sentença e, naquele 21 de Março de um ano qualquer, o fogo te levasse para sempre.
No jardim daquele mosteiro cor de terracota, a uns poucos metros da imponente porta de entrada, estava um cavaleiro. O meu cavaleiro. O meu amor que saiu dos sonhos para me levar com ele. Do seu cavalo branco olhou-me com um olhar tão profundo que me senti nua, sem roupa, sem pele e sem corpo. Restaram nossas almas para viver aquele momento tão esperado e tão intenso. E tal como previras, o nosso beijo foi igual ao que demos nos dias em que não nos conhecíamos.
Eu e a minha cara metade tornámo-nos num só. Como se antes daquele momento tudo estivesse incompleto.
Mesmo assim, minha amiga, duvidei das tuas palavras. Só depois tomei consciência da partida que as tuas intuições te tinham pregado. Tive a certeza que nunca soubeste que serias tu o tal alguém que iria confundir o meu destino. Erradamente pensei que se o soubesses nunca o tinhas proferido. E, fazendo aquilo que me avisaras para não fazer, virei as costas ao meu cavaleiro e entrei a porta do mosteiro para me ajoelhar e implorar misericórdia junto daquele cardeal que se preparava para assistir à redução do seu verdadeiro amor a cinzas.
Acreditei tanto no poder daquele momento com o meu cavaleiro que tive a certeza que ele era indestrutível e duraria para sempre.
Enganei-me. Da varanda do mosteiro, junto daquele que, por te amar mais que à própria vida decidiu transformar-te em nada, assisti à consumação do teu corpo pelo fogo. Cinzas que se perderiam num vento qualquer. Da mesma janela vi o meu herói cavalgar para longe rumo ao destino das nossas vidas de desencontro.
Agora és cinzas. És as cinzas que percorrem o rosto da minha alma gémea para lhe sussurrar as palavras de amor que nunca lhe consegui dizer.